Vida da Beata Nhá Chica

       Francisca de Paula de Jesus – Nhá Chica – nasceu em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, distrito de São João Del Rei, em 1810. Seu batistério diz que era filha natural de Izabel Maria; de seu pai não se tem notícia; era o tempo da escravidão, mancha indelével na nossa História.

         Veio pequena para Baependi, juntamente com sua família e aqui sempre viveu; seguindo conselho materno, recusou-se a casar para melhor se dedicar a Deus e às pessoas mais necessitadas. Nhá Chica levou uma vida simples, morava no alto da Colina da Conceição. Sua casinha, muito pobre, de chão batido; ali recebia a todos, sem distinção; possuía poucos móveis, a cama era apenas um catre sem colchão.

     Era procurada por pessoas de todas as classes; ora eram doutores, deputados, conselheiros do Império; ora pessoas carentes de corpo e de espírito. Para cada um deles, um conselho, uma mensagem de esperança, baseadas na fé e na caridade. Por isso, ainda desde muito cedo foi chamada a Mãe dos Pobres e aclamada pelo povo, ainda em vida, como a ‘Santa de Baependi’.

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Foto: Santuário/Vitória Guedes

      Nhá Chica quando veio, pequena – peregrina do Rio das Mortes, trouxe consigo uma imagem, tosca, simples de Nossa Senhora da Conceição, a mesma que hoje se encontra exposta à veneração, colocada acima do esquife onde repousa a imagem da Bem-Aventurada. Imagem que, conta a tradição oral, havia pertencido a sua avó materna; acompanhou-a sempre, frente a ela fazia suas preces e pedidos. Sonhava com Maria e nos sonhos vinham muitas vezes a solução dos problemas, o pedido de alguma atitude.

      Seu irmão o Tenente Theotonio Pereira do Amaral, em testamento a declarou sua herdeira universal. Ele veio a falecer em 1861. Assim recebeu a herança de seu irmão, se empenhou em realizar o que chamou de pedido de Nossa Senhora. Ela dizia ter uma missão: a de construir uma capela em honra à Virgem da Conceição, a quem chamava “Minha Sinhá”.

      O local escolhido foi no alto da colina, onde ela já morava. E por que ali? Aquele local era muito pobre, e a Capela ficaria perto das pessoas carentes, as mais necessitadas de atenção e cuidados. Quando surgiam as dificuldades Maria era aquela que desatava os nós. A confiança de Nhá Chica em Sua Sinhá se tornava suporte e força no enfrentamento das dificuldades.

      Helena Ferreira Pena, na biografia da Bem-Aventurada, escreveu:

“(…) Contou-me uma senhora de inteira confiança e muito amiga de Nhá Chica: Que em um determinado dia da semana convidava os pobres e demais moradores daquela redondeza denominada ‘Cavaco’ para com ela elevarem preces à Virgem Mãe de Deus.

(…). Após as orações, ela distribuía aos pobres, esmolas em alimentos, pois todos já levavam para isso suas vasilhas. E era assim: ‘Recebia esmolas e dava esmolas’; chamavam-na ‘a mãe dos pobres’ (…)”.

“(…) Ninguém batia a sua porta sem que fosse por ela socorrido em seus pedidos e suas orações”.

(…)Quando, ao terminar o terço rezavam a Salve Rainha, Nhá Chica exclamava: “Salve Rainha”! …. Que palavras tão bonitas! …  Repete, gente, mais uma vez “Salve Rainha” e as lágrimas deslizavam pelas suas faces, já enrugadas pelos anos (…)”.

      Embora fosse analfabeta, tinha conhecimento das exigências legais para se erigir uma capela. Por isso, encontra-se anotado no livro da Receita e Despesa da Câmara Municipal da Vila de Baependi que, em 1865, Francisca de Paula de Jesus pediu licença e pagou a taxa de 2$000” para a construção de uma Capelinha ao Procurador da Câmara.

        Nhá Chica – segundo o livro “Tombo da Matriz” – em 1862, deu “uma boa esmola”, isto é, tudo que era necessário para dourar o altar-mor da Igreja Matriz de Baependi e deve ter sido uma grande importância, pois a notícia está registrada por Mons. Marcos Pereira Gomes Nogueira, no Tombo, Livro 1º, fl. 16 v, e se conserva no Arquivo da Cúria Diocesana de Campanha-MG.

Isto demonstra que Nhá Chica era uma pessoa não apenas ligada à Paróquia, à religião, mas consciente do valor cultural e histórico representado pela Igreja Matriz, especialmente o altar-mor.

      O médico e hidrologista Henrique Monat, titular da Academia Imperial de Medicina e fundador da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, transcreveu em seu livro Caxambu, o depoimento que lhe concedido por Nhá Chica em 1894: ‘Moça ainda, Nhá Chica já era a mãe dos pobres; pouco a pouco foi se estendendo a sua fama, porque os seus conselhos eram sempre muito ajuizados´. “Para todos ela tinha palavras de consolação e de conforto, a promessa de uma oração, a predição do resultado de uma empresa ou um socorro material”. 

    As previsões de Nhá Chica nunca deixaram de se realizar.

   Muitas eram as pessoas que acorriam a ela; jovens a pedir oração para realizar um bom casamento, doentes que lhe recomendavam a saúde, todos em busca de conselhos e paz. Nhá Chica prometia rezar e, muitas vezes, desvendava-lhes o que ia acontecer. “(…). É o Espírito Santo que inspira, porque tenho fé viva(…)”. (Monat). Nada atribuía a si mesma. Ou é a ‘Minha Sinhá que responde’ ou ‘é o Espírito Santo que inspira’. E sobre esta humildade, Deus agiu com a abundância de seus dons.

   Ela era procurada por seus sábios conselhos, por sua clarividência; nessa entrega a Deus não podia deixar de atender a quem dela precisasse: grandes e pequenos, de longe e de perto.

   E até nossos dias é isso o que acontece. Pessoas da região sul-mineira, de outros estados, até do exterior aqui acorrem em busca de consolo na dor, pedidos para seus filhos, maridos, amigos. Eles são atendidos e sempre voltam para agradecer e narrar as graças.

Nhá Chica faleceu em odor de santidade, seu semblante não apresentava os sinais da morte, pondo em dúvida até o próprio médico da localidade. Assim, o corpo da Bem-Aventurada ficou insepulto por mais três dias, “sem se decompor”, exalando perfume de rosas!

     Maria foi sempre sua inspiradora e confidente. Assim como a Virgem deu o seu sim a Deus, Nhá Chica também deu o seu sim a uma vida de devoção, caridade e amor aos necessitados, ajuda real e concreta, a matar a fome dos necessitados, assim como dos carentes de consolo espiritual.

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Foto: Santuário/Vitória Guedes

      Os leigos constituíram elementos fortes a alicerçar a obra da Igreja no Brasil – construíram ermidas, capelas e organizavam as confrarias e as Irmandades.

        A nossa Nhá Chica foi uma dessas leigas consagradas que se destacou entre nós, construindo a Capela de Nossa Senhora da Conceição e realizando um belo trabalho evangelizador e de acolhimento a todos.

Nhá Chica é a Bem-Aventurada que seguiu todo o Caminho das Virtudes Heróicas, finalmente reconhecidas e aprovadas em 14 de janeiro de 2011 pelo então Papa Bento XVI: castidade, obediência, fé, pobreza, esperança, caridade, fortaleza, prudência, temperança, justiça e humildade.

      A Cerimônia de Beatificação, realizada em Baependi a 4 de maio de 2013, assistida por 50 mil pessoas, foi dia iluminado e luminoso, de paz e harmonia! Francisca, a Bem-Aventurada mereceu do Papa Francisco o título: “A luminosa discípula do Senhor! ”

Maria do Carmo Nicoliello Pinho, excertos da Biografia Documentada